Star Trek: O futuro começa

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Depois de assistir a « Star Trek », ficou a sensação de que J.J. Abrams foi mesmo para onde nenhum outro homem já foi…

Bom, talvez, exceto, por Martin Campbell e Christopher Nolan, já que parece estar mesmo em voga recomeçar a saga de grandes sucessos do cinema do passado. Aliás, a moda pegou de jeito. Campbell reiniciou a franquia do espião mais famoso da telona, James Bond, com o seu arrebatador « Casino Royale », com méritos também de Daniel Craig, que surpreendeu depois de várias chacotas públicas de que seria ele « o mais feio » dos agentes secretos da coroa britânica comparado aos seus ilustres predecessores (dentre os quais, Sean Connery e Roger Moore), que acabou rendendo uma continuação, « Quantum of Solace », de Marc Forster, fazendo os críticos maldosos pagarem com a própria língua pela boa receptividade do público quanto aos dois filmes.

Nolan, por sua vez, reiniciou a franquia « Batman » com os sucessos de « Batman Begins » e « O Cavaleiro das Trevas », filmes esses que nos mostram uma nova faceta do herói mascarado, e como nunca antes vimos, talvez apenas no quadrinhos, para verdadeiro delírio dos fãs, e acabou até mesmo se tornando motivo de interesse da Warner Bros. e sua afiliada DC Comics em também recomeçar a saga do Homem de Aço no cinema, já que o filme « Superman Returns », de Bryan Singer, não vingou pelo fato de não ter agradado o público em geral, segundo, pelo menos, o que dizem os tablóides especializados em rumores e notícias sobre o mundo do cinema.

Recomeçar cinesséries não é mérito apenas das grandes e mais caras franquias, pois recentemente também tivemos o relançamento da saga de Jason Voorhes com o novo « Sexta-Feira 13 », o qual, dizem, pois ainda não vi, é muito bom, e há rumores de que estão também trazendo de volta à vida os mortos dos filmes de George Romero!

Enfim, se for pra falar de tudo o que pretendem « rebootar » no cinema, vai ser um tópico que não acaba mais, de modo que, vamos logo ao que interessa…

Apesar de não ser o primeiro a recomeçar um grande sucesso do cinema, J.J. Abrams tem seus méritos. Afinal, trata-de se « Star Trek ». Ou seja, não é assim uma coisinha a toa, sem desmerecer os outros filmes e franquias em geral. Mas é « Star Trek », oras! Uma saga que anda por ai fascinando as pessoas há mais de 40 anos! E olha, embora eu tenha acompanhado muitos episódios da série de TV original pelas reprises do antigo canal Sci-Fi que por aqui era transmitido onde hoje é o Universal Channel, e tenha assistido a todos os filmes, com exceção dos seus derivados, dentre os quais, « The New Generation », « Deep Space Nine », « Voyager » e « Enterprise », que nunca me atrairam, não me considero uma « trekker » por assim dizer, mas sei que esse novo filme, com a promessa de recomeçar uma das histórias de ficção-científica mais aclamadas pelo público devia ser algo espetacular. E foi.

Assistir ao novo « Star Trek » foi uma experiência inefável. Mesmo eu, que sou muito leiga em vários aspectos da franquia original e da série de TV, notei referências deleitáveis e que cumpriram seu papel em homenagear uma saga tão bem construída. Claro, falando assim é até fácil. Seria basicamente injetar uma boa grana, e ter a genialidade de um diretor já consagrado no gênero ficção-científica como J.J. Abrams, que já vem fascinando desde algum tempo com as séries « Alias », « Lost » e « Fringe », e juntar retalhos do passado de « Star Trek » para construir uma boa trama. Mas não é só isso…

É fato notório que os fãs de « Star Trek » são dos mais exigentes. Sendo assim, surpreendê-los com um « reboot » da cinessérie não é uma tarefa que se constrói apenas trazendo os personagens que tanto amam na pele de novos e talentosos atores, ou fazendo referências ao universo de « Star Trek » e mandando ver nos efeitos especiais. Seria muito fácil se fosse só isso. O problema, por assim dizer, é que « Star Trek » vem rendendo boas histórias há mais de 40 anos, desde que a série de TV estrelou no outuno estadunidense de 1966, e depois com os filmes, e então seus derivados, apresentando ao público inúmeros outros personagens.

Para que o novo filme pudesse ser bem aceito, considerando que se trata do reinício da franquia, deveria então, creio eu, haver uma boa explicação para esses 40 anos de histórias que acompanhamos simplesmente deixarem de existir para dar azo às novas aventuras da Enterprise, claro, já levando em conta a hipótese de que continuações estão por vir. Afinal, por mais que tenha sido o filme um deleite visual, seja com os efeitos, e a performance dos atores que incorporaram muito bem os personagens icônicos, ficou a preocupação de que fosse apagado para sempre da história de « Star Trek » tudo o que os tripulantes da Enterprise viveram até agora.

Felizmente, a genialidade de J.J. Abrams em adaptar o excelente roteiro de Roberto Orci e Alex Kurtzman, companheiros seus desde « Alias » e, atualmente, « Fringe », foi até onde nenhum outro homem poderia ir.

Com muita abnegação, o filme não apenas construiu as origens dos personagens James T. Kirk (Chris Pine) e Spock (Zachary Quinto), a evolução da sua relação até se tornarem amigos, e nos trouxe os tripulantes originais, como também desenvolveu uma história envolvendo a sempre temida viagem no tempo, que acabou criando na história um novo timeline. Bom, explicando pormenores, temos uma nave romulana vinda do futuro, conduzida por um certo capitão Nero (Eric Bana), que parece vir se vingar de Spock por alguma coisa. Ele destrói a nave da Federação sob o comando de George Kirk, pai de James T. Kirk. Passados mais de vinte anos, a nave volta a atacar, e temos uma mudança arrebatadora na história original, que acaba criando uma nova realidade, na qual teremos então as novas aventuras de « Star Trek ». Deu pra entender? Bom, o fato é que, viagens no tempo sempre me confundem a cabeça, mas a ideia é mais ou menos essa.

A inserção dos personagens originais na trama e a renião dos mesmos na Enterprise só corroboram o fato de que o ciclo se fecha com perfeição no filme. O jovem James T. Kirk, agora com 25 anos, é procurado por Pike (Bruce Greenwood) para que se aliste na Federação. Lá, ele encontra McCoy, a quem apelida de Bones (Karl Urban) e Spock. Logo no começo, o jovem Kirk se mostra o encrenqueiro e mulherengo que estávamos acostumados a ver na série, principalmente quando tenta se envolver com Uhura (Zoe Saldanha) e entra imediatamente em conflito com Spock ao vencer um de seus testes, valendo-se apenas do improviso, algo que o vulcaniano não aceita bem considerando sua lógica, e o acusa de fraudar o exercício.

Mas o ataque da nave romulana faz com que a Enterprise, sob o comando de Pike entre em ação. Kirk, suspenso por causa das acusações de Spock, acaba indo escondido, ajudado por McCoy. Os outros membros da tripulação original nos são apresentados, dentre eles, Sulu (John Cho) e Chekov (Anton Yelchin), com todas as suas características inerentes. Chekov, aliás, rende alguns dos momentos mais engraçados, tanto quanto Kirk com as reações aos medicamentos que lhe são ministrados pelo ainda inexperiente McCoy.

Bom, resumindo, Pike acaba sendo capturado, o planeta Vulcano é destruído, Spock assume o posto de capitão e entra novamente em conflito com Kirk, o qual tem um outro plano para abatar os romulanos, mas o vulcaniano o manda para um deserto gelado, onde, atacado por uma fera, é salvo por ninguém mais do que o Spock do passado, quer dizer, do futuro (Leonard Nimoy), que não apenas explica o motivo dos romulanos estarem ali, como o instrui como seguir adiante com a missão, revelendo, entre uma coisa e outra, o futuro no qual Kirk e Spock são grandes amigos. De volta à nave, Kirk, agora acompanhado de Scott (Simon Pegg), outro dos tripulantes originais da Enterprise, acaba desestabilizando Spock, a ponto dele mesmo renunciar o cargo, ao que Kirk assume o posto e, ao final, a missão acaba sendo bem sucedida com a ajuda de todos.

Fazendo ou não sentido, a ideia da mudança da realidade, com um novo timeline por causa da vinda da nave do futuro, fazendo com que Kirk se tornasse imediatamente capitão da Enterprise ao final, ao invés de primeiro comandar a Farragut, e já ter entre sua tripulação Chekov, que não faz parte da formação original, bem como a destruição do planeta Vulcano e a morte da mãe de Spock, acabou sendo uma boa forma de recomeçar a franquia. Provavelmente teremos histórias muito boas pela frente, e que de modo algum, por conta dessa narrativa deveras satisfatória, irá interferir ou prejudicar com o que já temos de « Star Trek », agradando aos antigos e aos novos fãs.

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Não menos importante, falar do elenco que compõe a tripulação da Enterprise nunca é demais. Chris Pine como Kirk parecia uma promessa que não seria cumprida, especialmente a julgar pela idade e pelo fato de não possuir uma grande bagagem. Preconceitos à parte, ele acabou fazendo bem seu papel, trazendo o que de melhor e de pior tinhamos do Kirk outrora interpretado por William Shatner. Já, Zachary Quinto como Spock, talvez por vir de uma série famosa da TV, que é « Heroes », na qual interpreta o temido vilão Sylar, e por terem sido divulgadas imagens suas como Spock antes da conclusão do filme, impressionando a muitos pela semelhança física com Leonard Nimoy como o personagem icônico, e dos mais adorados da saga, por óbvio, que não deixou nem um pouco a desejar, pois incorporou com verdadeiro empenho o cinismo inerente a Spock. Quando aos demais, Zoe Saldanha, Karl Urban, John Cho, Anton Yelchin e Simon Pegg como, respectivamente, Uhura, McCoy, Sulu, Chekov e Scott, mandaram todos muitissimo bem, e honraram com muito zelo seus predecessores. Alguns, obviamente, sobressairam-se mais do que outros, mas tivemos todos os membros originais da tripulação em suas melhores formas, e muito bem interpretados.

Resumindo, o filme foi ótimo. Espero que todos possam voltar para os próximos filmes, e que sejam muitos! Afinal, depois de um recomeço surpreendente como esse, o mínimo que se pode desejar é « Vida longa e próspera » à « Star Trek » e a todos os seus envolvidos!

Depois de assistir a « Star Trek », ficou a sensação de que J.J. Abrams foi mesmo para onde nenhum outro homem já foi…

Bom, talvez, exceto, por Martin Campbell e Christopher Nolan, já que parece estar mesmo em voga recomeçar a saga de grandes sucessos do cinema do passado. Aliás, a moda pegou de jeito. Campbell reiniciou a franquia do espião mais famoso da telona, James Bond, com o seu arrebatador « Casino Royale », com méritos também de Daniel Craig, que surpreendeu depois de várias chacotas públicas de que seria ele « o mais feio » dos agentes secretos da coroa britânica comparado aos seus ilustres predecessores (dentre os quais, Sean Connery e Roger Moore), que acabou rendendo uma continuação, « Quantum of Solace », de Marc Forster, fazendo os críticos maldosos pagarem com a própria língua pela boa receptividade do público quanto aos dois filmes.

Nolan, por sua vez, reiniciou a franquia « Batman » com os sucessos de « Batman Begins » e « O Cavaleiro das Trevas », filmes esses que nos mostram uma nova faceta do herói mascarado, e como nunca antes vimos, talvez apenas no quadrinhos, para verdadeiro delírio dos fãs, e acabou até mesmo se tornando motivo de interesse da Warner Bros. e sua afiliada DC Comics em também recomeçar a saga do Homem de Aço no cinema, já que o filme « Superman Returns », de Bryan Singer, não vingou pelo fato de não ter agradado o público em geral, segundo, pelo menos, o que dizem os tablóides especializados em rumores e notícias sobre o mundo do cinema.

Recomeçar cinesséries não é mérito apenas das grandes e mais caras franquias, pois recentemente também tivemos o relançamento da saga de Jason Voorhes com o novo « Sexta-Feira 13 », o qual, dizem, pois ainda não vi, é muito bom, e há rumores de que estão também trazendo de volta à vida os mortos dos filmes de George Romero!

Enfim, se for pra falar de tudo o que pretendem « rebootar » no cinema, vai ser um tópico que não acaba mais, de modo que, vamos logo ao que interessa…

Apesar de não ser o primeiro a recomeçar um grande sucesso do cinema, J.J. Abrams tem seus méritos. Afinal, trata-de se « Star Trek ». Ou seja, não é assim uma coisinha a toa, sem desmerecer os outros filmes e franquias em geral. Mas é « Star Trek », oras! Uma saga que anda por ai fascinando as pessoas há mais de 40 anos! E olha, embora eu tenha acompanhado muitos episódios da série de TV original pelas reprises do antigo canal Sci-Fi que por aqui era transmitido onde hoje é o Universal Channel, e tenha assistido a todos os filmes, com exceção dos seus derivados, dentre os quais, « The New Generation », « Deep Space Nine », « Voyager » e « Enterprise », que nunca me atrairam, não me considero uma « trekker » por assim dizer, mas sei que esse novo filme, com a promessa de recomeçar uma das histórias de ficção-científica mais aclamadas pelo público devia ser algo espetacular. E foi.

Assistir ao novo « Star Trek » foi uma experiência inefável. Mesmo eu, que sou muito leiga em vários aspectos da franquia original e da série de TV, notei referências deleitáveis e que cumpriram seu papel em homenagear uma saga tão bem construída. Claro, falando assim é até fácil. Seria basicamente injetar uma boa grana, e ter a genialidade de um diretor já consagrado no gênero ficção-científica como J.J. Abrams, que já vem fascinando desde algum tempo com as séries « Alias », « Lost » e « Fringe », e juntar retalhos do passado de « Star Trek » para construir uma boa trama. Mas não é só isso…

É fato notório que os fãs de « Star Trek » são dos mais exigentes. Sendo assim, surpreendê-los com um « reboot » da cinessérie não é uma tarefa que se constrói apenas trazendo os personagens que tanto amam na pele de novos e talentosos atores, ou fazendo referências ao universo de « Star Trek » e mandando ver nos efeitos especiais. Seria muito fácil se fosse só isso. O problema, por assim dizer, é que « Star Trek » vem rendendo boas histórias há mais de 40 anos, desde que a série de TV estrelou no outuno estadunidense de 1966, e depois com os filmes, e então seus derivados, apresentando ao público inúmeros outros personagens.

Para que o novo filme pudesse ser bem aceito, considerando que se trata do reinício da franquia, deveria então, creio eu, haver uma boa explicação para esses 40 anos de histórias que acompanhamos simplesmente deixarem de existir para dar azo às novas aventuras da Enterprise, claro, já levando em conta a hipótese de que continuações estão por vir. Afinal, por mais que tenha sido o filme um deleite visual, seja com os efeitos, e a performance dos atores que incorporaram muito bem os personagens icônicos, ficou a preocupação de que fosse apagado para sempre da história de « Star Trek » tudo o que os tripulantes da Enterprise viveram até agora.

Felizmente, a genialidade de J.J. Abrams em adaptar o excelente roteiro de Roberto Orci e Alex Kurtzman, companheiros seus desde « Alias » e, atualmente, « Fringe », foi até onde nenhum outro homem poderia ir.

Com muita abnegação, o filme não apenas construiu as origens dos personagens James T. Kirk (Chris Pine) e Spock (Zachary Quinto), a evolução da sua relação até se tornarem amigos, e nos trouxe os tripulantes originais, como também desenvolveu uma história envolvendo a sempre temida viagem no tempo, que acabou criando na história um novo timeline. Bom, explicando pormenores, temos uma nave romulana vinda do futuro, conduzida por um certo capitão Nero (Eric Bana), que parece vir se vingar de Spock por alguma coisa. Ele destrói a nave da Federação sob o comando de George Kirk, pai de James T. Kirk. Passados mais de vinte anos, a nave volta a atacar, e temos uma mudança arrebatadora na história original, que acaba criando uma nova realidade, na qual teremos então as novas aventuras de « Star Trek ». Deu pra entender? Bom, o fato é que, viagens no tempo sempre me confundem a cabeça, mas a ideia é mais ou menos essa.

A inserção dos personagens originais na trama e a renião dos mesmos na Enterprise só corroboram o fato de que o ciclo se fecha com perfeição no filme. O jovem James T. Kirk, agora com 25 anos, é procurado por Pike (Bruce Greenwood) para que se aliste na Federação. Lá, ele encontra McCoy, a quem apelida de Bones (Karl Urban) e Spock. Logo no começo, o jovem Kirk se mostra o encrenqueiro e mulherengo que estávamos acostumados a ver na série, principalmente quando tenta se envolver com Uhura (Zoe Saldanha) e entra imediatamente em conflito com Spock ao vencer um de seus testes, valendo-se apenas do improviso, algo que o vulcaniano não aceita bem considerando sua lógica, e o acusa de fraudar o exercício.

Mas o ataque da nave romulana faz com que a Enterprise, sob o comando de Pike entre em ação. Kirk, suspenso por causa das acusações de Spock, acaba indo escondido, ajudado por McCoy. Os outros membros da tripulação original nos são apresentados, dentre eles, Sulu (John Cho) e Chekov (Anton Yelchin), com todas as suas características inerentes. Chekov, aliás, rende alguns dos momentos mais engraçados, tanto quanto Kirk com as reações aos medicamentos que lhe são ministrados pelo ainda inexperiente McCoy.

Bom, resumindo, Pike acaba sendo capturado, o planeta Vulcano é destruído, Spock assume o posto de capitão e entra novamente em conflito com Kirk, o qual tem um outro plano para abatar os romulanos, mas o vulcaniano o manda para um deserto gelado, onde, atacado por uma fera, é salvo por ninguém mais do que o Spock do passado, quer dizer, do futuro (Leonard Nimoy), que não apenas explica o motivo dos romulanos estarem ali, como o instrui como seguir adiante com a missão, revelendo, entre uma coisa e outra, o futuro no qual Kirk e Spock são grandes amigos. De volta à nave, Kirk, agora acompanhado de Scott (Simon Pegg), outro dos tripulantes originais da Enterprise, acaba desestabilizando Spock, a ponto dele mesmo renunciar o cargo, ao que Kirk assume o posto e, ao final, a missão acaba sendo bem sucedida com a ajuda de todos.

Fazendo ou não sentido, a ideia da mudança da realidade, com um novo timeline por causa da vinda da nave do futuro, fazendo com que Kirk se tornasse imediatamente capitão da Enterprise ao final, ao invés de primeiro comandar a Farragut, e já ter entre sua tripulação Chekov, que não faz parte da formação original, bem como a destruição do planeta Vulcano e a morte da mãe de Spock, acabou sendo uma boa forma de recomeçar a franquia. Provavelmente teremos histórias muito boas pela frente, e que de modo algum, por conta dessa narrativa deveras satisfatória, irá interferir ou prejudicar com o que já temos de « Star Trek », agradando aos antigos e aos novos fãs.

Não menos importante, falar do elenco que compõe a tripulação da Enterprise nunca é demais. Chris Pine como Kirk parecia uma promessa que não seria cumprida, especialmente a julgar pela idade e pelo fato de não possuir uma grande bagagem. Preconceitos à parte, ele acabou fazendo bem seu papel, trazendo o que de melhor e de pior tinhamos do Kirk outrora interpretado por William Shatner. Já, Zachary Quinto como Spock, talvez por vir de uma série famosa da TV, que é « Heroes », na qual interpreta o temido vilão Sylar, e por terem sido divulgadas imagens suas como Spock antes da conclusão do filme, impressionando a muitos pela semelhança física com Leonard Nimoy como o personagem icônico, e dos mais adorados da saga, por óbvio, que não deixou nem um pouco a desejar, pois incorporou com verdadeiro empenho o cinismo inerente a Spock. Quando aos demais, Zoe Saldanha, Karl Urban, John Cho, Anton Yelchin e Simon Pegg como, respectivamente, Uhura, McCoy, Sulu, Chekov e Scott, mandaram todos muitissimo bem, e honraram com muito zelo seus predecessores. Alguns, obviamente, sobressairam-se mais do que outros, mas tivemos todos os membros originais da tripulação em suas melhores formas, e muito bem interpretados.

Resumindo, o filme foi ótimo. Espero que todos possam voltar para os próximos filmes, e que sejam muitos! Afinal, depois de um recomeço surpreendente como esse, o mínimo que se pode desejar é « Vida longa e próspera » à « Star Trek » e a todos os seus envolvidos!

De médico e louco todo mundo tem um pouco

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Se você ainda não assistiu ao final da quinta temporada de « House » e não quiser descobrir detalhes e informações que podem ser consideradas estraga prazeres, não leia adiante…

Com algumas semanas de atraso, assisti de uma sentada só aos três últimos episódios da quinta temporada de « House » e, posso dizer, com segurança, que não foi o final de temporada dos melhores.

Eu tinha parado de acompanhar a série semanalmente um episódio depois de « A Simple Explanation » (5.20), onde aconteceu o suicídio do personagem Lawrence Kutner (Kal Penn), naquele que considero um dos golpes mais sujos da história da série, e também no qual fiquei esperando a danada da « simples explicação » mencionada no título para a morte daquele que considerava meu personagem favorito na atual equipe de House. O fato é que, não houve a explicação, e tivemos que nos contentar em ver House (sempre brilhantemente interpretado por Hugh Laurie) tentar, porém em vão, descobrir os motivos que levaram o médico de sua equipe a se matar como se procurasse diagnosticar uma doença, e a conclusão de Wilson (Robert Sean Leonard), de que talvez não fosse algo a ser explicado.

A verdade é que o episódio só me deixou mais decepcionada com a série, que nessa temporada se mostrou tão fraca, com histórias cada vez mais voltadas a dilemas amorosos e centradas nos personagens mais sem graça, e mais irritada ainda com Chris Taub (Peter Jacobson), o qual considero o pior de todos da nova equipe ao lado de Thirteen (Olivia Wilde). Aliás, peço desculpas a quem gosta do personagem, mas acho que ele devia ter caído fora em « Here Kitty » (5.18), já que ali mesmo provou não gostar do que faz, ou então devia ter sido mandado embora de uma vez por todas em « Locked In » (5.19), episódio este que, embora deleitável pela participação de Mos Deaf, só serviu para mostrar o brilhantismo de Kutner na solução de um caso, e a bondade deste ao creditar a desvelação da doença que vitimava o paciente da semana a Taub só para que assim House não mandasse embora o amigo. Felizmente, House sabia o que o indiano estava fazendo.

Depois, assisti a « Saviors » (5.21) sem mais qualquer entusiasmo, afinal, o personagem que mais batia de frente com House na discussão dos casos e cujo humor era mais parecido com o dele tinha saído da série, e me deparei com algo inédito ao descobrir que a morte de Kutner não passou batida, como geralmente acontece em vários outras programas, onde personagens entram e saem, e aos que saem não resta uma migalha sequer da menção de seu nome, como se ao menos tivessem existido. Aparentemente, usaram a morte de Kutner para agravar o estado mental de House, que já não andava lá às mil maravilhas. Aliás, convenhamos, nunca esteve, prova de que por trás de uma mente brilhante sempre há uma certa loucura.

A grande surpresa em « Saviors », além de House começar a dar indícios de que perdeu seu « mojo », é a cena final, quando vemos o personagem principal alucinar com um membro antigo de sua equipe, e que assim como Kutner, bateu as botas de forma inesperada, porém, em « Wilson’s Heart » (4.16), a amada por muitos, e odiada por outros, Amber (Anne Dudek), alucinação essa, inclusive, que dá pano para a manga nos episódios seguintes.

Em « House Divided » (5.22), temos um dos episódios mais interessantes da temporada, talvez um dos melhores, quando House interage, claro, não descaradamente, com a alucinação de Amber, e descobre que ela nada mais é do que seu subconsciente, que se manifestou após a morte de Kutner. Assim, ele tenta solucionar um caso envolvendo um garoto surdo ao mesmo tempo em que toma partido nos preparativos para a despedida de solteiro de Chase (Jesse Spencer), atendendo aos palpites de sua alucinação, rendendo alguns dos melhores momentos da temporada. No final, descobrimos que a manifestação de Amber é mais perigosa do que aparenta, e House toma uma atitude drástica para se livrar dela.

O episódio « Under my Skin » (5.23) dá sequência aos eventos sucedidos no anterior, mostrando que House não conseguiu se livrar da alucinação de Amber, e tem agora que voltar para o hospital para tratar um novo paciente, muito embora seu desejo fosse o de manter distância dos casos até se livrar das visitas persistentes do ex-membro de sua equipe. É aqui que ele reconhece ter falhado com todas as suas tentativas de melhorar, e decide parar com o medicamento que o viciou por livrá-lo das dores musculares, com a ajuda inesperada de Lisa Cuddy (Lisa Edelstein). Os fãs de um envolvimento amoroso entre House e Cuddy provavelmente deliraram no episódio, pois tivemos um dos momentos mais românticos entre os dois na série, com a chefe do hospital ao seu lado, ajudando-o nos seus momentos de abstinência e, claro, um beijo arrebatador ao final.

Por fim, aquele que considero o episódio mais insano da temporada – e com isso não quero dizer que é totalmente ruim, mas sim, e felizmente, o último desse quinto ano, que só trouxe prejuízos depois de quatro temporadas muito boas – é « Both Sides Now » (5.24). A season finale mostra o dia seguinte à noite de dedicação total de Cuddy a House, e a manhã de amor entre os dois. Temos aqui um House como estávamos desacostumados a ver. Ele se mostra revitalizado, completamente livre de suas alucinações, e volta ao trabalho com muito dinamismo num caso que envolve um paciente com uma mão alienígena, que não responde aos seus comandos. Contudo, a grande preocupação do médico é o ponto final de Cuddy no relacionamento recém-iniciado. Como sempre, ele tenta diagnosticar o que considera um « problema » como se fosse mais um dos seus casos, e mais desta vez com a ajuda de seu fiel escudeiro, Wilson. Nesse meio tempo, temos ainda Chase e Cameron (Jennifer Morrison), que vivem o dilema do rompimento às vésperas do casamento quando esta decide não se livrar do esperma do falecido marido, a contragosto daquele.

Bom, quem assistiu a « Both Sides Now » sabe que quase o episódio todo não passou de uma grande piada sem graça, especialmente aos fãs do casal House/Cuddy. Não que eu seja um desses fãs, embora não nego o fato de que adoro os momentos de tensão sexual entre esses dois. Mas convenhamos que, se alguma coisa acontecer entre eles, é óbvio que a série perde o seu charme. Afinal, mais do que um lobo solitário, House é osso duro de roer, e qualquer romantismo o faz perder a graça (é só lembrar dos episódios em que ele e Stacey reataram), de modo que, se algum dia ele tiver que se envolver amorosamente com alguém na série, penso eu, terá que ser lá pelos episódios finais. Mas voltando ao episódio final, apesar de ter sido bacana pelos acertos finais entre Chase e Cameron (finalmente!), da cura do paciente da semana, e por não termos mais nenhuma morte na equipe de House, tivemos o nosso protagonista indo parar direto numa clínica psiquiátrica por causa das alucinações, agora, não apenas com Amber, como Kutner (aliás, a participação do Kal Penn valeu a pena nos instantes finais)? Como assim? E fica a dúvida… e agora? O que pretendem para o House no próximo ano? Tudo bem que foi até interessante a reviravolta final, especialmente porque ficou o tempo todo aquela sensação de que alguma coisa ruim ia acontecer, pois House estava muito bem na sua abstinência, e sabemos que Cuddy não ia agir tal como o fez depois daquela noite, e daquela manhã, e etc. O problema é saber agora como vai ser depois disso, e como pretendem justificar a volta de House ao exercício da medicina depois de tudo o que aconteceu!

Bom, sinceramente, acho que os finais das temporadas passadas foram muito mais interessantes que o dessa última, e a menos que comecem a sexta temporada de forma digna, como a série e o personagem principal merecem, eis que ainda há muito potencial em jogo, e com alguma teoria ou uma história bem convincente para sua recuperação e volta ao trabalho, vai ser difícil acompanhar mais um ano arrastado, ainda mais se não mudarem logo a equipe, que está totalmente desprovida de personagens interessantes e carismáticos. Só nos resta esperar por dias melhores na vida do nosso médico carrancudo favorito.

Meu Melhor Amigo

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« Tu és responsável por aquilo que cativas » (Antoine De Saint-Exupéry, em « O Pequeno Príncipe »).

Podemos todos contar nos dedos os nomes dos filmes que mais mexeram conosco, e ainda assim vão faltam alguns (filmes, dedos e talvez ambos). Para mim, « Mon Meilleur Ami » (conhecido por aqui como « Meu Melhor Amigo ») é exatamente um desses filmes.

O fato é que, não muito recentemente descobri o cinema francês, e antes disso eu o via com certo preconceito, já que em sua maioria os filmes franceses parecem ser tão pretenciosos e quase sempre sem alguma lição de moral, não que seja uma regra, no meu caso, assistir a um filme que deva necessariamente ter uma mensagem nele embutida. Volta a meia, gostamos de nos surpreender com algo inovador e com um final inesperado. Mas geralmente é isso mesmo que procuramos, o simples, o previsível, algo com o que podemos nos identificar e ainda assim tirar algum proveito, e não foi acaso que, em minhas andanças pela seção de filmes franceses de uma videoteca, encontrei « Mon Meilleur Ami », que segue a velha fórmula, mas com novos ingredientes.

Confesso que o filme chamou mais a atenção por conta do carisma e da versatilidade do ator que interpreta um dos personagens principais, qual seja, Daniel Auteuil, que já havia me conquistado por conta de suas performances em filmes como « Le Placard » (2001), « L’adversaire » (2002), « 36 Quai des Orfèvres » (2004) e « Caché » (2005), filmes esses, aliás, que fogem completamente do padrão a que estamos tão acostumados.

Em « Mon Meilleur Ami », temos uma narrativa simples, que poderia muito bem passar desapercebida ou ser equiparada à de filmes que costumávamos assistir nas sessões da tarde, mas que conduzida por um elenco carismático que não apenas inclui Daniel Auteuil, mas Julie Gayet e Dany Boon, e a direção de Patrice Leconte, aliado ao fato de se tratar de uma comédia como há muito tempo não se via, considerando que nos dias de hoje é o linguajar indecente que torna os filmes de comédia engraçados, e acaba conquistando o telespectador.

No filme, o personagem de Auteuil é François Coste, sócio de um antiquário. Apaixonado por objetos raros e antigos, ele é um exímio especialista em tudo o que diz respeito à arte. Logo no começo, temos uma cena em que François e sua sócia, Catherine (Julie Gayet), participam de um leilão de peças de colecionador, onde, por mero capricho, ele adquire para si um vaso egípcio de valor astronômico, o que acaba causando um confronto entre os dois.

No dia do aniversário de François, ele se reúne com alguns colegas para um jantar, e Catherine, ainda magoada com a aquisição por seu sócio do objeto que pode comprometer o antiquário, que já não anda faturando bem, acaba lançando ao vento a assertiva de que ele não tem um amigo de verdade. François ri, e diz que todos ali são seus amigos, mas acaba se surpreendendo quando estes lhe dizem que não o são. Ainda assim, ele alega possuir um verdadeiro amigo que nenhum deles conhece. Catherine então o desafia a apresentar-lhes esse seu verdadeiro amigo no prazo de dez dias, caso contrário ele deverá entregar o vaso, ao que François aceita o desafio.

Depois disso, temos uma sucessão de eventos engraçadissimos, que incluem um até então sempre carrancudo François se vendo desesperado atrás de alguém a quem possa creditar o título de amigo de verdade. Ele tenta se aproximar de pessoas que conversam em restaurantes e mesmo na rua para saber como se tornaram amigos, e acaba até mesmo passando pela vexatória situação de ter que comprar um livro para saber como fazer amigos, até que conhece o divertido, falante e carismático taxista Bruno Bouley (Dany Boon), aspirante a participante da versão francesa do programa « Quem quer ser um Milionário? ».

Determinado a ganhar a aposta com Catherine, François acaba pedindo ajuda ao taxista, sempre simpático e amigável com todos à sua volta, acreditando que este pode lhe ensinar os truques para conseguir fazer um amigo de verdade, embora nem mesmo Bruno pareça ter um. Mas François acaba descobrindo que as coisas não são tão fáceis como pensa quando percebe que não tem o menor jeito para aplicar a regra dos três « s » e que, segundo o taxista, « amigo verdadeiro é aquele para quem você pode ligar às 3:00 horas da manhã para pedir ajuda com um problema » (aliás, uma das melhores frases no filme).

E nessa busca desenfreada de François por um amigo de verdade que o filme segue, com surpresas engraçadas e muito agradáveis, bem como passagens memoráveis, como a conversa entre Bruno e Louise (filha de François), e mesmo a descoberta dos motivos pelos quais este não tem mais um amigo verdadeiro, tudo para ao final descobrirmos que amigo é aquele que conquistamos e com o qual podemos sempre contar, tal como pregado pelo taxista.

Bom, sou muito suspeita pra falar tão bem do filme, seja porque sou uma grande fã de Daniel Auteuil e sua interação com Dany Boon renderam momentos agradabilíssimos, seja pelo fato de que a narrativa me pegou totalmente desprevenida, por mais que eu soubesse do que se tratava a história, pois, enquanto assistia a « Mon Meilleur Ami », percebi que amigos de verdade são mais raros do que se imagina, e mantê-los nos dias de hoje, onde todos corremos contra o tempo e estamos sempre muito mais voltados para nós mesmos, é um grande desafio. Percebi também, ao assistir ao filme, que amigos estão mesmo longe de ser aqueles nossos meros contatos sociais e profissionais, as pessoas com quem tratamos no dia-a-dia, ou mesmo que encontramos casualmente através de outros contatos para sair de vez em quando num bar e falar um monte de besteiras, mas aqueles com quem podemos verdadeiramente contar nos nossos momentos mais difíceis, e que estão sempre presentes, seja para tomar um café agradável no meio de um duro dia de expediente, seja para dar uma volta num dia agradável de domingo. Enfim, Patricia Laconte soube mostrar magnificamente bem o que um amigo de verdade representa.

A Sombra do Vento

Talvez seja um pouco tarde para comentar sobre esse que considero um dos melhores livros que já li na vida, uma vez que terminei sua leitura há mais de um mês, mas deixar de mencioná-lo por aqui seria uma heresia, assim como quase o foi o fato de tê-lo descoberto apenas recentemente.

Bom, em primeiro lugar, é conveniente mencionar que a campanha de marketing de venda de « A Sombra do Vento » não é nem um pouco mentirosa quando diz que « o enredo mistura gêneros como o romance de aventuras de Alexandre Dumas, a novela gótica de Edgar Allan Poe e os folhetins amorosos de Victor Hugo ». O livro, de fato, é tudo isso e até um pouco mais. Tem ainda a identidade de seu autor, Carlos Ruiz Zafón, assinalada com sua escrita impecável, ora em prosa poética, ora em prosa irônica, e a descrição abarrotada de sentimento por parte do mesmo quando descreve as ruas de sua amada Barcelona dos anos 40 e 50, prova cabal de sua notória paixão pela preservação da memória.

A história de « A Sombra do Vento » começa mostrando nosso protagonista, o jovem Daniel Sempere, filho de um livreiro de Barcelona que, numa tentativa de acalentar a tristeza do garoto pelo fato deste não conseguir mais se lembrar do rosto de sua falecida mãe, leva-o para conhecer o « Cemitério dos Livros Esquecidos », lugar conhecido por poucos, e que na verdade é uma biblioteca secreta e labiríntica que se presta como depósito para as obras abandonadas pelo mundo. Lá, Daniel encontra um exemplar de « A Sombra do Vento », e sua fixação pela história do jovem e misterioso autor, o também barcelonês Julián Carax, ganha força e constrói a narrativa.

Em seu caminho pela busca da verdade, cada vez mais fascinante no decorrer da leitura, o jovem Sempere acaba esbarrando com personagens muito interessantes, como o adorado Fermín Romero de Torres, mendigo de passado glorioso e senso de humor inigualável, responsável por algumas das melhores tiradas no livro, e que acaba se tornando seu grande aliado em suas investigações; assim como Nuria Monfort, filha do guardião do « Cemitério dos Livros Esquecidos », e que nada mais é do que uma mulher triste e que guarda doloroso segredo; e Javier Fumero, o cruel policial que da mesma forma que Daniel, dedica a vida a perseguir o fantasma de Carax.

Na medida em que descobre mais fatos relevantes sobre a vida do autor de « A Sombra do Vento », mais Daniel passa a entender os mistérios de suas obras, as quais têm sido rastreadas e destruídas por um misterioso homem que se denomina Laín Coubert, personagem que no livro de Carax nada mais é do que o diabo, ao mesmo tempo em que relaciona todos esses eventos à história de amor iniciada no começo do século entre o próprio autor, filho de um modesto chapeleiro, e Penélope Aldaya, filha de uma família da alta sociedade de Barcelona. Não demora muito para que identifiquemos os eventos na vida de Carax como semelhantes aos vividos pelo próprio herói da história, o qual acaba se envolvendo amorosamente com Bea, irmã mais velha de seu melhor amigo Tomás Aguilar, causando um grande rompimento entre os dois.

Por óbvio que não vou mencionar o desfecho da narrativa, mas posso assegurar que o livro é tão fascinante quanto a vida de mistérios de Julián Carax, que na história é descrita como uma verdadeira matrioshka, ou boneca russa se preferir, que nada mais é do que um brinquedo constituído por uma série de bonecas, geralmente feitas de madeira, colocadas umas dentro das outras. Ou seja, a cada novo fato desvendado por Daniel e seu fiel escudeiro Fermín durante o curso da narrativa, um novo mistério é revelado, e assim sucessivamente, até chegarmos a um final arrebatador.

Não se pode deixar de mencionar que o cenário da grandiosa Barcelona das primeiras décadas do século XX, com suas largas avenidas e seus casarões abandonados, é a grande coadjuvante da história, conferindo à trama uma atmosfera gótica e espectral, e constribuindo sobremaneira para a ambientação da narrativa, na qual o leitor, juntamente com Daniel, mergulha numa busca desenfreada pela verdade acerca de Julián Carax, na medida em que também acaba se identificando com o jovem Sempere ao se interessar tanto pelo autor daquele livro que mudou sua vida.

Após ler « A Sombra do Vento », o qual, longe de desmerecê-lo, mas a contrário do que muito se tem dito por ai, não se trata nem um pouco de uma trama eletrizante, e sim uma história de mistério fascinante e genial, que verdadeiramente instiga o leitor mesmo com seu ritmo lento, fica a tristeza de saber que se trata esse apenas do primeiro romance escrito por Carlos Ruiz Zafón, que atualmente vive em em Los Angeles, California, onde escreve roteiros para o cinema e trabalha num novo romance, além de colaborar nos jornais espanhóis La Vanguardia e El País. A título de curiosidade, o autor já escreveu anteriormente histórias voltadas para um público mais jovem, como « O Princípe da Névoa », que vendeu mais de 150 mil exemplares na Espanha e foi traduzido em vários idiomas, « El Palacio de la Medinoche », « Las Luces de Semptiembre » e « Marina ».

Felizmente, aos que gostaram do trabalho de Zafón em « A Sombra do Vento », há rumores de que sua mais recente obra, « O Jogo do Anjo », que se encontra disponível nas livrarias, é tão bom quanto aquele. Já me esmerei na leitura deste novo romance, e posso garantir que, até onde estou, a obra parece excepcional, mas falar mais sobre ela fica para um tópico mais adiante. :)

Ano da França no Brasil

Ano da França no Brasil começa com queima de fogos na Lagoa Rodrigo de Freitas

Aos que não sabem, 2009 é considerado oficialmente como o Ano da França no Brasil, e tal como o ocorrido em 2005, que foi consagrado como ano da presença do Brasil na França, ocasião em que centenas de eventos musicais, literários e culturais foram promovidos pelo Ministério da Cultura no sentido de apresentar ao publico francês a diversidade artística do país tropical, temos agora a resposta do Ministério da Cultura francês, que promove nas principais capitais dos estados brasileiros uma ativa manifestação da tão estimada e admirada arte de Victor Hugo, Manet, Debussy, Rodin, Pasteur, Piaf, Sartre, e tantos outros mais, manifestações culturais essas preparadas desde agosto de 2007, com a chegada ao Brasil de Olivier Poivre d’Arvor, diretor da Cultures France, e com o investimento de mais de 15 milhões de euros, entre recursos públicos e privados, e a participação de grandes empresas como a Renault, a Air France e a PSA Peugeot Citroen.

Ressalte-se, que o amor pela cultura francesa no Brasil vem dos tempos coloniais, quando muito se incorporou pelos portugueses do estilo francês, em especial junto à elite intelectual abertamente francófila, que se estendeu até meados os anos 60, quando então a presença norte-americana se tornou avassaladora no estilo de vida dos brasileiros.

Foram quase cinco séculos de influência francesa sobre o Brasil em todas as áreas, desde artes plásticas até fotografia, literatura, filosofia, ideais políticos, arquitetura moderna e cinema. Ou seja, praticamente não houve arte, ciência ou conhecimento em que a cultura francesa não esteve presente entre nós.

Historicamente, temos a presença marcante dos ideais franceses em eventos consideravelmente importantes no Brasil, como a Inconfidência Mineira (1789), inequivocadamente inspirada nos princípios iluministas e da maçonaria francesa que atuava na região das Minas Gerais, e a Revolta dos Alfaiates (1789), que se tratou de uma conspiração baiana ocorrida em Salvador como uma reprodução dos acontecimentos revolucionários passados na França, inspirada por intelectuais pertencentes à Academia dos Renascidos, e de caráter emancipacionista, articulada por pequenos comerciantes e artesãos, destacando-se os alfaiates, além de soldados, religiosos, intelectuais, e setores populares. Não menos importante, é A Proclamação da República (1889), que se deu sob a égide da celebração do Centenário da Revolução francesa de 1789, com ideais republicanos fortemente embasados pelo pensamento filosófico de Auguste Conte, fornecendo inclusive o lema da bandeira nacional: Ordem e Progresso.

Mas foram nas artes que a cultura francesa mais se solidificou no Brasil, em especial:

  • na arquitetura, inaugurando por aqui o estilo neoclássico, e séculos mais tarde, o estilo moderno (com os projetos arquitetônicos do Ministério da Educação e Cultura do Rio de Janeiro e da Igreja da Pampulha em Belo Horizonte, por Oscar Niemeyer);
  • na fotografia, voltada à reprodução da natureza e eventos históricos;
  • no teatro, com a produção de peças inspiradas nos trabalhos de grandes escritores franceses, como Victor Hugo, Bouchardy, Dumas e Voltaire;
  • na literarura, com a influência das obras hugolianas no trabalho de grandes artistas que se destacaram no Brasil, como Castro Alves com seu “Navio Negreiro”, e no século XX, com o modernismo e o realismo, que influenciou fortemente os trabalhos dos brasileiros Mario e Oswald de Andrade, bem como Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade;
  • e no cinema, com a influência de cineastas como Jean Luc Godard, François Truffaut, Alain Resnais e tantos outros.

Não se pode deixar de mencionar o papel da França no Brasil quanto à incorporação da Maçonaria; do Espiritismo, com a fundação da Federação Espírita Brasileira (FEB), que assumiu a divulgação da obra de Allan Kardec; bem como do naturalismo; do positivismo no Brasil colônia; das novas políticas de urbanismo e higienização; e do existencialismo moderno de Jean Paul Sartre e Simone Beauvoir.

A França também teve grande influência na fundação, por Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras (1897), com regulamentos inspirados diretamente na Academia Francesa de Letras, esta última, localizada no Instituto de França, e fundada em 1635 pelo Cardeal de Richelieu, e cuja função é regular e aperfeiçoar a língua francesa.

Portanto, aos apaixonados pela cultura francesa, e mesmo aos que pouco sabem sobre a preponderância desta na cultura brasileira, os acontecimentos que devem marcar o Ano da França no Brasil são um prato cheio, não apenas para enriquecimento cultural propriamente dito, como também a título de curiosidade. Afinal, uma sociedade tão voltada para a incorporação em seu cotidiano dos ideais norte-americanos, descobrir um pouco mais sobre aquele que é um dos países mais ricos e cultos do mundo é uma tarefa mais do que obrigatória.

Os eventos do Ano da França no Brasil tiveram início no dia 21/04 e deverão prosseguir até o dia 15/11, com a realização de cerca de 300 exposições e manifestações culturais. O ministro da Cultura, Juca Ferreira, e a ministra da cultura e comunicação da França, Christine Albanel, disseram que a programação tem como objetivo « o aprofundamento do diálogo entre os dois países », e é fato que o acontecimento trará a reaproximação da França com o Brasil, economica e política.

Além das cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador, outras 12 grandes capitais brasileiras são cenário para as manifestações culturais francesas (como Porto Alegre, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba, Recife e Manaus), e para conferir a agenda de eventos, basta acessar os sites abaixo:

Ano da França no Brasil

Ano da França no Paraná