A Renault de Doisneau

Fotografia é minha paixão antiga, mas nem por isso você vai me ver com uma máquina fotográfica nas mãos a cada evento social e familiar do qual participo, ou mesmo trabalhos meus divulgados por ai. Não. Eu amo tirar fotografias e ser fotografada, mas mais do que tudo, apreciar os trabalhos de um bom fotógrafo.

Há algum tempo eu estava querendo assistir à exposição « Le Renault de Doisneau », um dos eventos promovidos para o Ano da França no Brasil, mas a falta de tempo me compelia de fazê-lo. Nesse último final de semana, impulsionada por um desejo súbito de dar umas voltas no centro da cidade, acabei encontrando a oportunidade e o tempo necessários para apreciar os trabalhos desse grande fotógrafo.

Para quem não sabe, Robert Doisneau (1912-1994) foi um famoso fotógrafo humanista francês, influenciado por Henri Cartier-Bresson, e conhecido mundialmente por registrar a vida social das pessoas que viviam em Paris e em seus arredores, mas principalmente por suas fotografias comerciais para publicações em revistas, assim como a famosa fotografia « O Beijo do Hotel de Ville » (Paris, 1950):

Mais do que tudo, Doisneau é notoriamente conhecido pelo estilo. Seus trabalhos são modestos, divertidos e irônicos, mas acima de tudo envolvendo pessoas em suas rotinas diárias. Ele se presta de justaposições que envolvem desde classes sociais até situações cotidianas nas ruas e nos cafés parisienses. Seus protagonistas são sempre pessoas. É dele a frase: « As maravilhas da vida diária são excitantes; nenhum diretor de cinema consegue captar o inesperado que encontramos nas ruas ». E quem poderia contrariar tal afirmativa?

A exposição, como o próprio nome indica, tem, em sua maioria, os trabalhos realizados por Doisneau quando este trabalhava como fotógrafo industrial da multinacional Renault, em Billancourt, França, entre os anos de 1934 a 1939. O artista, aliás, teve duas passagens pela montadora de carros francesa. Nos idos da década de 30, quando, apenas com 22 anos de idade, já dominando as técnicas de enquadramento e luz, foi contratado como fotógrafo itinerente, e deixou para a posteridade o universo da grande indústria e da alta sociedade francesa, e anos mais tarde, quando contratado para trabalhar como fotógrafo freelancer para as campanhas publicitárias da Renault (1945-1955). Mas a mostra também revela o trabalho urbano de Doisneau, e sua paixão pelo cotidiano da vida urbana parisiense.

Relatando brevemente sua trajetória após sua demissão na sua primeira passagem pela Renault em 1939, Doisneau se tornou membro da resistência francesa e registrou a ocupação e a libertação de Paris. De conseguinte, tornou-se freelancer da revista « Life » e de diversas outras internacionais. Apesar de relutar, acabou trabalhando para a « Vogue » de Paris entre 1948-1951, e fotografou inúmeros famosos como Giacometti, Cocteau, Leger, Braque, e Picasso. Recebeu inúmeros prêmios, como o Kodak (1947), o Niepce (1956), o National de la Photographie (1983) e o Balzac (1986).

Embora « O Beijo do Hotel de Ville » seja o trabalho mais conhecido de Doisneau, a identidade do casal era um mistério até 1993, quando Denise e Jean-Louis Lavergne levaram o fotógrafo a julgamento por divulgar a imagem sem seu consentimento. Foi então que Doisneau revelou que a foto havia sido tirada em 1950 e que o casal na verdade era Françoise Bornet e Jacques Carteaud, modelos que se dispuseram a posar para ele. Françoise tinha uma impressão original da foto como forma de pagamento, e em abril de 2005, mais de 10 anos da morte do artista, ela a vendeu por 155,000 € num leilão.

Abaixo, apenas algumas das mais de 100 fotografias que podem ser conferidas na imperdível exposição « Le Renault de Doisneau »:

Os trabalhos de Doisneau podem também ser conferidos na Biblioteca Nacional em Paris, no Instituto de Arte de Chicago, na Casa George Eastman em Rochester, New York, e na Galeria Witkin em New York City.

Para saber mais sobre o fotógrafo, o site oficial é Robert Doisneau.

A exposição « Le Renault de Doisneau » em Curitiba acontece até o dia 14 de junho, na Casa Andrade Muricy.

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